sexta-feira
quinta-feira
O velho Conselheiro - Machado de Assis
Qual!
Não posso interromper o Memorial;
aqui me tenho outra vez com a pena na mão. Em verdade, dá certo gosto deitar ao
papel cousas que querem sair da cabeça, por via da memória ou da reflexão. Venhamos
novamente à notação dos dias.
Desta
vez o que me põe a pena na mão é a sombra da sombra de uma lágrima...
Creio
tê-la visto anteontem na pálpebra de Fidélia, referindo-me eu à dissidência do
pai e do marido. Não quisera agora lembrar-me dela, nem tê-la visto ou sequer
suspeitado. Não gosto de lágrimas, ainda em olhos de mulheres, sejam ou não
bonitas; são confissões de fraqueza, e eu nasci com tédio aos fracos. Ao cabo,
as mulheres são menos fracas que os homens, - ou mais pacientes, mais capazes
de sofrer a dor e a adversidade... Aí está; tinha resolvido não escrever mais,
e lá vai uma página com a sombra da sombra de um assunto.
Também,
se foi verdadeiramente lágrima, foi tão passageira que, quando dei por ela, já
não existia. Tudo é fugaz neste mundo. Se eu não tivesse os olhos adoentados
dava-me a compor outro Ecclesiastes, à modernam posto nada deva haver moderno
depois daquele livro. Já dizia ele que nada era novo debaixo do sol, e se o não
era então, não o foi nem será nunca mais. Tudo é assim contraditório e vago
também.
Memorial de Aires . Machado de Assis
eclesiastes: "o que foi é o que há de ser; e o que se fez isso se fará: de modo que nada há de novo debaixo do sol".
sexta-feira
Alma brasileira
ODE A UMA MANHÃ NO BRASIL
"Esta é uma manhã
do Brasil. Vivo dentro
de um violento diamante,
toda a transparência
da terra
se materializou
sobre
minha fronte,
move-se apenas
a perfeita verdura,
o rumoroso cinturão
da selva:
vasta é a claridade, como uma nave
do céu, vitoriosa."
Pablo Neruda (Navegações e Regressos)
sábado
Escuto ao guiar o rio
Escuto ao guiar o rio,
Margem a margem, a altura da distância desses
lados
Fico de um incomunicável a procura da fonte
Noutro a procura dos mesmos sinais
Mas sinais ou silhuetas que não se revestem
sobre
A forma de meu mal, afinal são metades vindas
De onde? Metades que entrego sobre a fronte
clara.
Escuto ao guiar o
rio
A matéria fina das
águas
Malhas fluídas
furam
E ferem de ardor
Esta língua
cascata.
Entre a terceira
Renasce clara a
mulher solar
Dos pássaros. Renasce-a
Sendo quem em mim
Sonda do som
Marítimo porque
deságua desfaz.
Poesia inédita Carol De Bonis.
Poesia de sábado [Rosa Alice Branco]
A mãe escavada nos dedos
Coração escavado na rocha,
um buraco onde as crianças se agarram
enquanto alguém soletra o teu nome
na maré que sobe
e vozes miúdas chamam pela mãe.
Depois é preciso esculpir uma rocha
em forma de coração
de plástico de cinza de carvão
porque a pedra dói nos dedos ao entardecer
quando se vão as últimas palavras
e não há ninguém para enganarmos,
para nos podermos enganar
quanto à matéria de que é feito o coração.
As rochas ao longe são todas iguais
e o meu corpo submerso
nunca sentiu o ofegar das pedras
quando o mar as deixa.
Vê, aqui é o lugar do coração.
Quanto custa trazeres-me à superfície,
abrir os dedos e sentir pulsar neles
o nome da mãe que soletramos
sempre que nos chamamos um ao outro
quando a maré baixa e revela o buraco
de que é feito o coração?
Os cheiros de Maio
Também a casa. O que resta dela
é o mapa onde percorro
os caminhos que tracei ao longo dos anos.
É fácil perder-me, o papel desfaz-se
quando rego a planta da casa,
o verde com que saio das trevas
e me orienta o atlas
onde te respiro a presença.
És mais tu do que antes
quando o teu riso dançava na casa,
uma casa que girava sobre os calcanhares
do mundo
e eu era a cintura da ampulheta
por onde passa o tempo.
Agora estou de cabeça para baixo
e tu sobes por mim
até aos olhos com que me vejo correr
para o teu colo
na casa que guarda os aromas
com que amassas o milagre da presença.
Rosa Alice Branco (Soletrar o dia)
Coração escavado na rocha,
um buraco onde as crianças se agarram
enquanto alguém soletra o teu nome
na maré que sobe
e vozes miúdas chamam pela mãe.
Depois é preciso esculpir uma rocha
em forma de coração
de plástico de cinza de carvão
porque a pedra dói nos dedos ao entardecer
quando se vão as últimas palavras
e não há ninguém para enganarmos,
para nos podermos enganar
quanto à matéria de que é feito o coração.
As rochas ao longe são todas iguais
e o meu corpo submerso
nunca sentiu o ofegar das pedras
quando o mar as deixa.
Vê, aqui é o lugar do coração.
Quanto custa trazeres-me à superfície,
abrir os dedos e sentir pulsar neles
o nome da mãe que soletramos
sempre que nos chamamos um ao outro
quando a maré baixa e revela o buraco
de que é feito o coração?
Os cheiros de Maio
Também a casa. O que resta dela
é o mapa onde percorro
os caminhos que tracei ao longo dos anos.
É fácil perder-me, o papel desfaz-se
quando rego a planta da casa,
o verde com que saio das trevas
e me orienta o atlas
onde te respiro a presença.
És mais tu do que antes
quando o teu riso dançava na casa,
uma casa que girava sobre os calcanhares
do mundo
e eu era a cintura da ampulheta
por onde passa o tempo.
Agora estou de cabeça para baixo
e tu sobes por mim
até aos olhos com que me vejo correr
para o teu colo
na casa que guarda os aromas
com que amassas o milagre da presença.
Rosa Alice Branco (Soletrar o dia)
segunda-feira
Coração de vinil
MEU CORAÇÃO ACELERADO
ACORDADO NOS ACORDES
DESSA TRAMA SOLUÇA
O QUE SEM SOLUÇÃO
REFAZ NA TRAMA (NA CAMA)
O DESENGANO
NÃO SE ENGANA
AO QUE VEIO: AMAR.
tocou num átomo
cinzel de estrelas sugando
o universo adentro:
ela se deixou levar.
domingo
Do calendário lunar
À TS do jeito que me contou.
Após terminar o calendário de seis noites e cinco dias, uma para a
madrugada da lua das mulheres que entornavam madrigais, ele diz, aqui entre nós
permanece o enigma. Os olhos das mulheres eram esfinges, armavam-se as fugas e
todos perceberam que é o silêncio que recobre certas coisas. O rei abriu o
silencio com os dedos dentro dele viviam sete mulheres em nomadismo elas
traçavam fronteiras na areia e logo que se cansavam de uma terra desenhavam
outras. Dentro da esfinge repousava o segredo de uma madrugada a mais, desde
que o rei fora obrigado a igualar os dias do ciclo lunar com o calendário real
houve uma descomunhão entre os seres todos da cidade que pareciam que
circulavam entre a fissura do real e irreal, erguiam-se muralhas, travavam
batalhas, espadas derramavam sangue.
O tempo entornava dentro do tempo, todas as palavras derivavam da
ciência de Ollan*, quando o estudo da ciência da letra se dava durante doze anos.
O rei chamou Walugui e disse-lhe que escrevesse a história dos dias. Walugui que
era um sábio e louco ao mesmo tempo sofreria grande provas se não fosse capaz
de escrever, mas para aprender a escrita deveria se submeter a Ollan estudando
mitologia e memorizando as trezentas e sessenta das histórias que correspondiam
ao calendário lunar. Walugui não acreditava ser capaz porque não acreditava na
memória acreditava sim na paixão, passou a circular noite e dia pelos arredores
do castelo observando a natureza o sol e as noites estreladas. Chegou o dia e a
única coisa que ele sabia dos olhos da esfinge era o seu decifra-me ou
devoro-te. Decifrar era aprender uma outra língua e não aquela dos sábios
gregos e troianos que seu povo falava quando evocava as guerras e o sangue
derramado. Negaria os vikings e todas as batalhas. A beleza não se via, os
homens nasceram proibidos de ver a beleza, os poetas apenas nomeavam.
- Aproxime-se Walugui e diga – disse o rei poupando-se dos longos
discursos da realeza.
- Fechar os olhos é uma forma de traição. De tanto olhar comecei a
falar palavras que de começo não entendia. Palavras do delírio. Nós homens
somos observadores dos céus, não há método para dizer que existe uma madrugada
a mais no calendário, nem que há um descompasso entre o calendário lunar e o
calendário real, o que há é a guerra desse fino tecido de homens que acreditam
em lucidez e paixão. Navegar é preciso por muitos mares...
Um longo silêncio,
- Como percebi essas longas noites as estrelas voltaram ao lugar
normal, de onde, elas nunca deveriam ter saído. A madrugada a mais é desejo dos
homens, é velamento ela não se deixa capturar em seu mistério. Alguma coisa a
revela, mas é feitiçaria.
O rei ordenou que prendessem Walugui, disse que ele descumpria a lei
de Ollan a mais alta sabedoria e inventava fábulas sem destinação. Disse também
que procurassem a mulher com que Walugui tivera aquela conversa, encontraram-a
vagando pelo deserto ela falou, no que consta na história, que aconselhou
Walugui a ficar em silêncio. A beleza não é dada aos homens a ser vista nem tão
pouco dita.
*ler Borges; cinema.
*ler Borges; cinema.
terça-feira
Murilo Mendes.
Metade Pássaro
A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.
A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.
* * *
Poema Essencialista
A madrugada de amor do primeiro homem
O retrato da minha mãe com um ano de idade
O filme descritivo do meu nascimento
A tarde da morte da última mulher
O desabamento das montanhas, o estancar dos rios
O descerrar das cortinas da eternidade
O encontro com Eva penteando os cabelos
O aperto de mão aos meus ascendentes
O fim da idéia de propriedade, carne e tempo
E a permanência no absoluto e no imutável.
* * *
Reflexão nº1
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
* * *
A marcha da história
Eu me encontrei no marco do horizonte
Onde as nuvens falam,
Onde os sonhos têm mãos e pés
E o mar é seduzido pelas sereias.
Eu me encontrei onde o real é fábula,
Onde o sol recebe a luz da lua,
Onde a música é pão de todo dia
E a criança aconselha-se com as flores,
Onde o homem e a mulher são um,
Onde espadas e granadas
Transformaram-se em charruas,
E onde se fundem verbo e ação.
Murilo Mendes
A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.
A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.
* * *
Poema Essencialista
A madrugada de amor do primeiro homem
O retrato da minha mãe com um ano de idade
O filme descritivo do meu nascimento
A tarde da morte da última mulher
O desabamento das montanhas, o estancar dos rios
O descerrar das cortinas da eternidade
O encontro com Eva penteando os cabelos
O aperto de mão aos meus ascendentes
O fim da idéia de propriedade, carne e tempo
E a permanência no absoluto e no imutável.
* * *
Reflexão nº1
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
* * *
A marcha da história
Eu me encontrei no marco do horizonte
Onde as nuvens falam,
Onde os sonhos têm mãos e pés
E o mar é seduzido pelas sereias.
Eu me encontrei onde o real é fábula,
Onde o sol recebe a luz da lua,
Onde a música é pão de todo dia
E a criança aconselha-se com as flores,
Onde o homem e a mulher são um,
Onde espadas e granadas
Transformaram-se em charruas,
E onde se fundem verbo e ação.
Murilo Mendes
segunda-feira
Meu amor,
escrevo para dentro
muda, o amor em silêncio
amando em silêncio
a estrada não vai de som
em som à sombra é um filme
antigo mudo mundo
esse moço
não entende
não entende
ele não entende
ontem eu era outra
você não é o que parece ser
ontem o amor era palpável
hoje fica um grão do desejo
o meu desejo
amanhã uma parte dessa parte
escrevo para fora transbordando
amo para fora
amo esquizofrênica
vou por todos os caminhos falando
de amor.
muda, o amor em silêncio
amando em silêncio
a estrada não vai de som
em som à sombra é um filme
antigo mudo mundo
esse moço
não entende
não entende
ele não entende
ontem eu era outra
você não é o que parece ser
ontem o amor era palpável
hoje fica um grão do desejo
o meu desejo
amanhã uma parte dessa parte
escrevo para fora transbordando
amo para fora
amo esquizofrênica
vou por todos os caminhos falando
de amor.
domingo
O amor essa caminhada.
I.
Despertava as águas e o corpo seguia:
Insuspeito derramava o perder-se do contorno
Da pele para habitar a fronteiras, as bordas.
Pela janela um filete de luz do sol anunciava amanhecer
Já não reconhecia a cidade, ainda bem
Dentro dela sabia da superfície de prata
Da noite e das estrelas e de toda lua branca
Naquele quarto crescente.
II.
Um sentimento indecifrável: decifra-me quando o laço do simbólico se
rompe fica a fenda qual se renuncia. ao renunciar perde-se uma dose de
sentido, uma dose de fio que deve se untar, uma dose de corda que puxamos para
não perder o fio do labirinto da mente. Essa corda esse elo nunca existiram são
enigmas claros que pairam dentro do mais azul da dor dos chicotes das águas do
mar. Não há o mar eu repito ela cisma obsessiva e distraída ao olhar muito
adiante. Juntos tecemos novas teias e renomeamos o mundo.
III.
Resolveu que iria ter nesse papel a salvação daquela espera antiga. Sabes bem do que eu digo. Você sabe bem do que se trata?
Uma lógica que fosse suspeita secando a aragem num céu de volume azuláceo. Como fizesse calor por essas terras e ela tão somente caminhasse e caminhasse. O meu amor essa caminhada, entende?
IV.
Sabes bem do destino. Quer mudar a rota denunciar as injustiças quando sem querer avista algumas mulheres chorando numa roda, pensa que avista depois de um breu, ela que se conformou com a miopia naquela cidade cinza, ver demais era ruim, tudo feio por toda a parte as placas e os sinais que nunca levavam a lugar algum, a cidade circular e a ciranda, ver demais abundantemente para quê, acho que minha miopia regrediu.
Sabes bem do destino. Quer mudar a rota denunciar as injustiças quando sem querer avista algumas mulheres chorando numa roda, pensa que avista depois de um breu, ela que se conformou com a miopia naquela cidade cinza, ver demais era ruim, tudo feio por toda a parte as placas e os sinais que nunca levavam a lugar algum, a cidade circular e a ciranda, ver demais abundantemente para quê, acho que minha miopia regrediu.
Aconteceu que chegou naquela terra vazia numa madrugada, sentou-se numa portinhola que era em verdade a porta de um banheiro feminino abandonado na beira de uma estrada próximo a um posto de gasolina em ruínas, começou a soluçar desse soluço logo veio um choro entrecortado pelo peito palpitante, ela havia corrido para chegar até lá, estava salva embora abandonada.
É
sempre assim. Uma voz da escuridão fala.eles sempre deixam-nas por essa estrada algumas chegam em prantos muito alto. Era mais uma daquelas mulheres.
Trançam mais uma ciranda
Desapareceu nos meus ombros estava ali tão perto
no olhar que vejo há aqui o mar sim e eu não
via aquela imensidão
dobrada como pêssegos nos ombros do mar o avesso
logo pensei que você pudesse estar onde não se via
dobrada como pêssegos nos ombros do mar o avesso
logo pensei que você pudesse estar onde não se via
naquele seu coração de mágico
mesmo aqui pensei em ficar pé ante pé
no abismo nua me atirar
num amor que se morre
pensei em dizer mas o dito não alcançava
a distância do verbo havia no lapso entre
vejo essa paisagem em minhas retinas
suas claras pupilas juram
não haver a paisagem
sobre o branco estava lá e não estava
eu estava lá e não estava
mas, veja, não sou uma pessoa
ontem telefonaram e mataram a personagem
na verdade, não me importo em sê-la
somente algumas caligrafias
do jardim da infância
o que se tem aqui são os aedos
cantando rente aos meus sonhos
trançam mais uma ciranda
para enfim perder-me.
um amor. desordenado
terça-feira
o exterior que nos contorna é azul branco e laranja.
vice-versa
daqui de dentro o extremo do mundo é uma abóbada de curvas coloridas.
o exterior que nos contorna é azul branco e laranja
quando à tarde.
uma membrana muito fina em mutação de luz de consistência e cores.
uma bolha de sabão refletindo caos
de um arco-íris.
visto desde suas entranhas o exterior não é geométrico mas orgânico e
mutante.
as estradas são longas os espaços medidos. de vez em quando uma nuvem
escura cuneiforme pende sobre a terra como
um cordão umbilical.
já não se sabe de que lado fica o corpo do mundo.
Marcos Siscar ( Interior Via Satélite).
quinta-feira
Oração dentro de uma fotografia.
O dia era nublado sua memória tornava-se nublada
resvalada pelo esquecimento, fora o tempo de escrever e ela apenas deixou que
tudo passasse. O passado não chegava com hora marcada nos batendo na porta,
ainda esse passado ficara na outra margem do rio, bens sabes, uma mulher não se
banha duas vezes no mesmo rio.
Se não fosse pelo fato de que ninguém hoje em dia
se banha mais em rios, se não fosse por essa civilização, o mesmo motim das
brigas primeiras enquanto ela inteira nômade e selvagem inteira feroz como os
animais suas cidades em senhas silenciosas abrindo descampários infinitos, ele
inteiro racional e civilizado como se os séculos das luzes refletissem em seu
corpo, algo mais do que as águas refluíssem.
Não entro no rio para me banhar, vou me afogando
lentamente até que encontre demoradamente essa outra que me acena e me socorre
no futuro.
Contruir a ciência com essa mulher do futuro, ela
que me acena com aquele vestido branco de primeira comunhão. Uma confusão, a
mulher que me acena se parece com a outra que se despediu, ambas com um vestido
engomado sujo de terra vermelha na bainha.
Tento lhe perguntar, a voz se perde,
roucamente me saem algumas palavras - te
deixaram brincar no barro em dia de festa? - ela não me responde e eu me sinto
a mais inútil dos seres, certamente deixaram-na, a resposta pode ser muito
óbvia.
Contruir novamente, a ciência da roda de
bicicleta, do comboio de corda, da semente para colher do sêmem aves em dois
pares de olhos verdes.
Se não fosse pelo simples fato de haver uma
memória em tudo isso talvez não seríamos tão humanos e não haveria ninguém que
aqui escrevesse pela memória que se abre ao ver a fotografia.
Um mundo inteiro passou por ali, uma vida
inteira, bens sabes.
Assim se despedaça um dia na moldura de uma
fotografia antiga. Olhando-a nasce um pedaço de mundo. Poderia ter sido,
poderia ter sido a vida inteira, não foi. Depois os olhos partem mais um pouco
de tristeza. Ela para e pensa na amiga morta em Judy.
* * *
quarta-feira
Reparação.
Fazia quinze anos que não se viam. O grande amor ficou suspenso como um samba, mudando de calçada quando aparecia uma flor. E de repente, com todas as improbabilidades, a flor aparece na calçada de cá também.
Entram na agência bancária. Tudo está seco e cinza lá fora, como um feriado de repartições públicas. Parece o fim do mundo, com pombos anunciando que não é bem assim, não é bem assim, e papéis sujos tentando se transformar em pombos mas sempre regressando ao meio-fio. Venta. Um vento cinza.
Mas a camiseta dele é vermelha com letras brancas e por um instante ela acredita ler ali: GORMENGHAST. Por que diabos Gormenghast? Sentados, esperam por alguém que está na fila do banco. E a conversa vai aproximando seus lábios, até que se beijam. Quinze anos depois e assim de repente. Ela diz: se eu te disesse como pensei em você durante esse tempo todo. Ele diz: se eu te lembrar das cartas que te mandei e que ficaram sem respostas. Ela diz: mas eu era tão nova ainda.
Sabe que ali o mundo se recria. Será que vai reconhecê-lo nesta camiseta vermelha? Será que a vida dele é a mesma? A cor dos olhos sim. A cor dos cabelos não.
Ela pensa com força para fixar este mundo. E acorda com o vento batendo na porta.
Entram na agência bancária. Tudo está seco e cinza lá fora, como um feriado de repartições públicas. Parece o fim do mundo, com pombos anunciando que não é bem assim, não é bem assim, e papéis sujos tentando se transformar em pombos mas sempre regressando ao meio-fio. Venta. Um vento cinza.
Mas a camiseta dele é vermelha com letras brancas e por um instante ela acredita ler ali: GORMENGHAST. Por que diabos Gormenghast? Sentados, esperam por alguém que está na fila do banco. E a conversa vai aproximando seus lábios, até que se beijam. Quinze anos depois e assim de repente. Ela diz: se eu te disesse como pensei em você durante esse tempo todo. Ele diz: se eu te lembrar das cartas que te mandei e que ficaram sem respostas. Ela diz: mas eu era tão nova ainda.
Sabe que ali o mundo se recria. Será que vai reconhecê-lo nesta camiseta vermelha? Será que a vida dele é a mesma? A cor dos olhos sim. A cor dos cabelos não.
Ela pensa com força para fixar este mundo. E acorda com o vento batendo na porta.
Adriana Lisboa (Caligrafias)
segunda-feira
Inefável e Rumores de mulher
Equivocar o caminho
é chegar à mulher,
à mulher que não teme a luz.
(Lorca - pequeño poema infinito)
Rumores de Mulher
"estamos condenados à sede
embora em nós se cumpram antigos poemas.
nada me fará culpável
a única saída é entrar
ser engolida, cheirada, devorada.
pisei um círculo,
pensemos
há flores abertas para ninguém
obedeço como um refém alucinado
escrevo nos contornos da tua boca a palavra intocável.
nenhuma inversão
nenhum artifício
só a linguagem (e não a minha língua)
escorrega pela minha cara.
agora direi: o girar sobre teus olhos me exalta
e só um poeta poderá compreender o que digo.
já não sou meus atos
já não sou eu,
apenas a resistência aplicada ao reverso de um ângulo.
ouves a pedra cantar,
só a fantasia me torna bela,
bela como um animal incontrolável,
o desejo é o único que permanece intacto
puro é igual a feroz."
(...) Nusch
sábado
As raízes de uma árvore
na soleira de madeira pisa de leve entra despercebida no palco
o desejo se quebra ao desfolhar da rosa são corados os pêssegos
enquanto isso desmoronam cidades e crianças sonham
abaixo do assoalho você pensa no tamanho do mundo
nas raízes que não vingaram debaixo da madeira
você conversa escondida com as raízes de uma árvore
convençe-las da solidão
daquela noite em que tudo perdeu seu contorno
o mundo era imenso quem mais saberia debaixo de teus lencóis d´água
nos fundos da casa armam uma traição
fazem amor e revolução no sem fim
um filme passado em qualquer forma de desejo,
uma forma gasta de saudade
assim se repete o dia & os anos
repetem a refazer o enigma
vês nas sombras a arquitetura dessas reentrâncias
a flor perder seu visco
escutas os passos ao redor de ti
quero antes uma terra onde possa semear
afundar-se no risco de si mesmo
mas reinventar o inefável
terra da infância nas arcadias
vigiavam os ausentes
que nunca pisaram na lua.
domingo
Hoje o mundo veio a forma
Hoje o
mundo veio a forma
Veio na
forma que minhas pupilas circulam
A claridade.
Esse verão imenso essa aura
De um
sinal aéreo que renasce a circular
Acima de
mim. E dentro a puxar o cordão
Do relógio
essas coisas dos jornais e da guerra
Trouxeram
os mantimentos? Como se metade do tempo
Soubesse
e a outra metade fosse novamente o tempo
E que
ele viesse a mim novamente papável
Mais preciso
quando incomunicável.
Não serias
tu que mentirias a mim sobre o mar
Afinal o
mar era só a forma em que metade do mundo fala
O resto
envelhecia nos anos dessa terra
Pisada dos
passos e dos poços a quem socorre
Do corte
a cicatriz. Mas falemos da infância
Que parou
com a ampulheta desse eterno cismar
Metade do
mundo sei veio até mim
Mas sem
palavras nem coisas veio como uma distração
Largo as
mãos a ensaiar fantoches
Distrações
e sem falas uma espécie de dança
Para ter
certeza que encontrei um socorro
Que repita
deserto e coração
Que repita
coração campo aberto
Onde o
cavalo parte depois que o mundo se despede
Onde podemos
falar a partir das pedras.
Poesia Inédita Carol De Bonis
The End of Time (Barnosky)
segunda-feira
De tudo, meu amor, fica um pouco: resíduos
De tudo meu amor fica um pouco
O amor consumido pelas bordas
quando os limites do círculo se apagarem
o laço se lança ao centro
se arrastas performática
Trazendo na boca rosas as ancestrais de Atenas
e no núcleo atenta
outro do amor e um risco
rasura cicatriz
O amor que esquecemos de se dar
O amor de bocas mastigando pétalas
O amor dos corpos pássaros torrentes
O amor pedindo outra embarcação
O amor que se deixa e se parte e reparte
O amor dos abandonos reinventando o inefável
Porque é a convulsão de humanos
uma ilha se esvaindo
o vento desterrando o cais
Qual rodas de um mar
imerso desaguando
nas calhas do coração.
O amor consumido pelas bordas
quando os limites do círculo se apagarem
o laço se lança ao centro
se arrastas performática
Trazendo na boca rosas as ancestrais de Atenas
e no núcleo atenta
outro do amor e um risco
rasura cicatriz
O amor que esquecemos de se dar
O amor de bocas mastigando pétalas
O amor dos corpos pássaros torrentes
O amor pedindo outra embarcação
O amor que se deixa e se parte e reparte
O amor dos abandonos reinventando o inefável
Porque é a convulsão de humanos
uma ilha se esvaindo
o vento desterrando o cais
Qual rodas de um mar
imerso desaguando
nas calhas do coração.
Sinfonia Selvagem
Rumo de abismos
Subo degraus sem escada
Ouso dissolver na memória
Nossos toques indivisos.
Me transmuto em muitas,
E isso não é fácil,
Como caminhar descalça
Renascendo musgos
Ervas dentre os pés
Desenhando caminhos
À possível lunação
Descascando aposentos
Primitivas grutas
Imersas embarcações
Interiores em frestas.
Faço um pacto com a dor
Reinvento a casa
Crio um outro ritmo
Na transparência
Ao avesso do vento
Que balança as raízes
Fora da terra.
Com vendas nos olhos
Ainda que não tenha
Labirintos previsíveis
Me renasço na beira
De abismos.
Setembro
Compor azulejos
Com fragmentos
Da memória
Recolher suave
Esquecimentos
Quando tudo
(seguro em essências)
São cinzas.
Transpor ao nome
A imensidão dos pássaros.
Recostar gaivotas
Em troncos
Palavras em
Asas
Aves em
Ninhos.
(poemas de 2006)
Subo degraus sem escada
Ouso dissolver na memória
Nossos toques indivisos.
Me transmuto em muitas,
E isso não é fácil,
Como caminhar descalça
Renascendo musgos
Ervas dentre os pés
Desenhando caminhos
À possível lunação
Descascando aposentos
Primitivas grutas
Imersas embarcações
Interiores em frestas.
Faço um pacto com a dor
Reinvento a casa
Crio um outro ritmo
Na transparência
Ao avesso do vento
Que balança as raízes
Fora da terra.
Com vendas nos olhos
Ainda que não tenha
Labirintos previsíveis
Me renasço na beira
De abismos.
Setembro
Compor azulejos
Com fragmentos
Da memória
Recolher suave
Esquecimentos
Quando tudo
(seguro em essências)
São cinzas.
Transpor ao nome
A imensidão dos pássaros.
Recostar gaivotas
Em troncos
Palavras em
Asas
Aves em
Ninhos.
(poemas de 2006)
quarta-feira
Entre duas escolhas um ponto de equilíbrio
Entre duas escolhas o ponto do equilíbrio,
entre a manhã e a madrugada o destino na ponta dos dedos da mulher que
sela as cartas com a saliva, da mulher que se esquece de entregá-las
porque não há compromisso para o amor porque o amor é a outra metade, a
alma dos homens que fazem a revolução e saem para as ruas, hoje esse canto ensurdece, o canto das sereias, o canto de um adeus para um
futuro que ainda não nasceu. Ando saudosista como se a saudade fosse uma
maneira para se esquecer de tudo. Esquecer que há um compromisso e seguir
a maestria dos antigos em perdê-lo. Dos antigos sábios que ainda erram
quaisquer pelas ruas, do cronista que entende a beleza em qualquer perdida
multidão.
Eis quando a alma se perde do corpo e eu sinto saudade em
esquecer-me.
segunda-feira
Os sete cercos
Os sete cercos
um: diria os nômades dessa superfície de musgos que desintregam seu olhar. dois: traria uma porção mágica para abrir os sete cercos. três: saberia dos jardins de Versalhes que não foram plantados com as mais belas flores de toda Paris. quatro: uma mulher na conquista dos espasmos dessas cores. cinco: jardim multicolor tinge de branco e vermelho o leite de seus seios. seis: roma romã o silêncio no deserto de duas lobas. sete: ama do silêncio a língua que se inventa ao ouvir prisioneira dos sete cercos.
hino dos homens por amor a guerra
desterro-exílio nos cercos do coração
de nunca essa terra de nômades pertenceu
a solidão, somos civilização de corpo-cicatriz.
ciranda
esse núcleo muito aberto derrama ao desejo
e prenuncia sua pura distância
em novas maneiras do devir
no instante em seguir
ou ficar em voltas
com as redomas
de um coração.
sábado
Átimos de luz
As dores metálicas estão sempre fora mim
Sitiadas as almas se encontram num átimo de luz
E alumiam, mas meu coração sente em metal
A prata do alumínio transplantar meus sentimentos.
Para onde? Para a aura de um anjo torto, se
For ele a mim que me olha sendo-o
Para a usina para a antena para o fundo do mar
Para as correntes elétricas que tocam uma alma
A outra de maneira sobrenatural.
Poesia inédita
quinta-feira
Aquele grande rio Eufrates - Ruy Belo
Perigo de Vida
É grande o risco da palavra no tempo
maior mesmo talvez que no mar
Eu fui à margem do dia despedir um amigo
e não houve no cais
iniciativa verbal que edificasse
uma só tenda para o nosso coração
Éramos peregrinos
O que deixam a saudade de turistas
O que deixam a saudade de turistas
ausentes na rua de outono
Morríamos contra a curva dos dias
a morte rotativa e provisória
Tivesse a própria palavra lábios
e nenhum clima poderia
arrefecer-lhe o coração
Tivesse ela lábios e não seria
tão grave o risco no tempo e no mar.
Ruy Belo
Certa conditio moriendi
Os poetas todos fitaram a morte
e reuniram-se depois numa assembleia de riso
para esquecer quem eram
Mas era a morte a única saída.
Vita mutatur
Nunca até hoje eu morrera tanto em alguém
Caíste mais na minha orla
do que a nespereira do quintal
Não secou para mim assim o paul de malmequeres
onde os ralos iam repetir as noites
e os abibes vinham de estações no bico
O mesmo céu que tu me desdobraste sobre a infância
acaba de depor na tua fronte
o excessivo peso de uma estrela
Com a tua partida a minha história começa
a escrever-se para além da curva
onde à tarde rompia a camioneta das cinco:
nenhum outro veículo vinha
tão cheio de longe e de tempo
A natureza entrava pela noite dentro precedida
no pátio pelos véus da sombra
Agora as tuas pálpebras desceram
Não mais o teu olhar te defende
Tu és um ser exposto a todos os olhares
esgotado resumido e sem mistério
Deixaste abertas todas as gavetas
desordenada a secretária
Já a tua presença não reúne
as linhas divididas desse rosto
que essas humildes coisas tinham
para ti nem a tua sombra cobre
domésticos e ínfimos segredos
Tens finalmente aquele metro e oitenta
a que te circunscreviam civilmente
é essa até a tua última
dimensão conhecida
Levarei mais longe a tua vida e cobrirei
da tua morte um pouco mais de terra
Haja sempre novos olhos
abertos no muro do tempo
e braços que transmitam o sol
à volta da terra para lá do mar
Já as primeiras chuvas perseguem
os passos que cumpriste na praia
Tudo nessa posição te dispõe
para o dia da grande aceitação
Estende-se sobre ti na sua superfície de mar
o grande olhar de deus.
Ruy Belo (1933 - 1978); Aquele grande rio Eufrates.
terça-feira
Arrasta o condão de abertura
entre as duas portas abertas você erra caminhando para trás
sabendo dos
mímicos apalpa bem de leve o branco num equilíbriofino e uma mão se move tocando ao ar a ciência do pássaro sem pouso
o quarto escuro mas só aquilo que tocas entre o esquerdo
do nome é o AMOR que arrasta o cordão de abertura
toma do primeiro um ENIGMA pode ainda pertencer ao antes
distraidamente vê uma mesa posta coberta de preto
alguém chama teu nome num tilintar
copos de cristal tingem o obscuro do nome
soletrar é só uma escolha envolvida
nos passos a desdizer qualquer vestígio da família
fosse um só traço que riscou na madeira
e pareceu o desenho de um pássaro
de pedra seu coração não é mais o mesmo
nos dias frios a chuva inundando os pântanos
medievais (sempre habitara) o vento alastra num clarão
DERRAMANDO entre os ciprestes a camisa de seu pai
avisa vou voltar sem saberem eu ainda não morri
o espelho margeia um rosto pode ser o seu e do seu filho
juntos refletem o silêncio do depois e quando os olhos estiverem partido
pode ser que de qualquer intenção não reste o meio fio das coisas
essa luz toda escorrendo seja nenhuma brecha
porque entre duas portas abertas você erra caminhando para trás
depois recolhe os restos do circular e desdiz
o amor com suas dobras e triângulos
desenha a geometria com que nos amamos no ar.
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